terça-feira, 1 de setembro de 2015

Paura


...o breu desgraçado! Mal conseguia distinguir o asfalto do acostamento. Era uma noite de céu encoberto. Deveria estar com medo mas como dizem, o que não se vê não se sente.
Lembrei de meu avô dizendo “só bestas como você para acreditar em coisas que só os olhos vêem”. Senti sua presença ao meu lado, “devia dar ouvidos ao seu coração.”
De imediato meu coração disparou, um frio súbito subiu minha espinha. Algo de muito ruim estava para acontecer, não sabia o quê, algo de muito perigoso. Parei no meio da estrada e tentei ver o que poderia ser.
Nada.
Escutar?
Somente os grilos e vento batendo no mato.
Cheiro?
O perfume do ar da noite.
Mas meu coração saltava avisando que tinha problemas chegando, “maldito carro quebrado! Merda!”
Meu avô de novo, “é melhor se acalmar pra pelo menos não mijar nas calças, o resto deixa que seu coração resolva.”
Desatei a correr, pude perceber uma árvore bem copada na beira do acostamento.
Subi.
Achei uns galhos que me deixariam bem escondido e até confortável.
Algum tempo depois percebi um barulho de motor se aproximando. Era um carro de faróis apagados e uma lanterna vasculhava o acostamento.
Pararam perto da árvore, pude ouvi-los:
“Será que o desgraçado conseguiu fugir?”

“Vamo dá uns tiros no mato só pra ter certeza.”

“Não. O cara conseguiu fugir. O santo dele foi mais forte. Não tem jeito.”
Foram embora.
Fiquei tão apavorado que adormeci agarrado aos galhos.
Sonhei com meu avô, dizia que estava se esforçando para que nada de mal me acontecesse, mas que deveria lembrar das coisas que ele me ensinou.
“Que coisas?”. Perguntei.
“Aquelas que te permitiram sobreviver a este contratempo.”
Acordei com um cocô de passarinho escorrendo no meu rosto. Nem percebi o sol nascer, mas estava com uma estranha tonalidade. Dizem que quando se tem contato com os espíritos o dia seguinte fica de uma cor diferente.
Fui pra casa.
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